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A fuga das latinhas: como a exportação de sucata complica a indústria brasileira de alumínio

  • Foto do escritor: Ecomet Metais Sustentáveis
    Ecomet Metais Sustentáveis
  • 16 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

60% do alumínio consumido no Brasil vem de material reciclado. Mas a venda de sucata para fora ameaça esse progresso


O alumínio distingue-se como um material singular sob a ótica ESG, em razão de sua capacidade de reciclagem infinita sem perda de propriedades físico-químicas. Resíduos pós-consumo, como latas de bebidas, possibilitam a obtenção de alumínio secundário com grau de pureza equivalente ao do alumínio primário extraído da bauxita e submetido a processos industriais complexos de refino. Ademais, em comparação com outros metais igualmente recicláveis, o alumínio apresenta uma vantagem econômica relevante: a utilização de sucata como matéria-prima implica custos significativamente inferiores aos da produção primária.


Reciclagem infinita com preservação de valor: O alumínio pode ser reciclado indefinidamente sem perda de propriedades, o que o torna um material estratégico para a economia circular e para cadeias industriais de baixo carbono.


O Brasil tem se beneficiado de forma expressiva dessa característica. Para cada dez toneladas de alumínio que ingressam no mercado nacional, aproximadamente seis têm origem em material reciclado — patamar que corresponde ao dobro da média mundial. Esse desempenho é resultado direto dos investimentos realizados pela indústria brasileira do alumínio na expansão de plantas de reciclagem e na consolidação de uma cadeia produtiva voltada à economia circular. No entanto, esse avanço encontra-se atualmente sob risco.


Para compreender a natureza desse desafio, é necessário analisar as diferenças estruturais entre a produção primária e a produção secundária de alumínio. A rota primária caracteriza-se por elevada intensidade energética e ambiental. O processo inicia-se com a extração da bauxita, minério com alto teor de impurezas, seguida pelo refino para obtenção da alumina. Na etapa subsequente, o alumínio metálico precisa ser separado do oxigênio ao qual está quimicamente ligado por meio de redução eletrolítica, procedimento que exige correntes elétricas de altíssima intensidade. Como consequência, o consumo de energia pode representar até 40% do custo total de produção. Não por acaso, grandes produtores nacionais mantêm infraestrutura própria de geração elétrica para assegurar o suprimento necessário.


Vantagem ambiental decisiva do alumínio secundário: 

A produção a partir de sucata consome cerca de 95% menos energia do que a rota primária, resultando em reduções expressivas de emissões de gases de efeito estufa e

menor pressão sobre recursos naturais.


Quando a matéria-prima utilizada é a sucata de alumínio, o perfil do processo produtivo altera-se substancialmente. O metal já se encontra na forma metálica, tendo superado as etapas mais intensivas em energia e emissões. O reaproveitamento envolve essencialmente a fusão, o controle da composição química e a conformação mecânica. A produção de lingotes e chapas a partir de latas pós-consumo demanda cerca de 95% menos energia do que a produção primária a partir da alumina, resultando em expressiva redução das emissões de gases de efeito estufa e do uso de recursos naturais, em plena consonância com os princípios da descarbonização industrial.


Do ponto de vista econômico e de governança, a sucata de alumínio configura-se como uma commodity plenamente estabelecida no comércio internacional. Se a alumina é amplamente negociada nos mercados globais, a sucata — que apresenta maior valor agregado e relevância ambiental — ocupa posição ainda mais estratégica. Em 2023, ano mais recente com dados consolidados, o comércio internacional de sucata de alumínio, incluindo latas pós-consumo prensadas, envolveu 121 países e movimentou aproximadamente US$ 19,8 bilhões, superando o valor transacionado no mercado global de alumina (US$ 17,1 bilhões) e da bauxita (US$ 10,3 bilhões).


Historicamente, a bauxita já foi tratada como ativo estratégico nacional. No contexto atual, contudo, a sucata de alumínio assume protagonismo superior, tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental, ao incorporar valor industrial previamente agregado e evitar impactos associados à mineração e ao refino primário.


No caso brasileiro, o comércio exterior de sucata apresenta uma particularidade relevante. Diferentemente de outras matérias-primas, o país é importador líquido de sucata de alumínio, uma vez que a capacidade instalada de reciclagem supera a oferta doméstica disponível. A indústria nacional estruturou um parque fabril robusto, com capacidade para reciclar mais de um milhão de toneladas anuais, volume equivalente a cerca de 50% da produção nacional de alumínio. O percentual de 60% mencionado anteriormente refere-se especificamente à participação do alumínio reciclado no consumo interno, após descontadas as quantidades exportadas.


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Trata-se de um caso atípico na estrutura industrial brasileira, no qual a capacidade de processamento cresceu em ritmo superior ao suprimento do insumo. Esse movimento foi impulsionado, em grande medida, pelo fechamento de plantas de produção de alumínio primário e pela consequente expansão do alumínio secundário. Como resultado, formou-se um descompasso estrutural entre oferta e demanda de sucata no mercado interno, tornando o país dependente de importações para manter a plena utilização de sua capacidade produtiva.


Esse equilíbrio, contudo, vem sendo pressionado por um aumento consistente das exportações de sucata. Embora a produção doméstica de cooperativas de catadores e sucateiros seja inferior à demanda interna, a saída de material para o exterior tem crescido de forma significativa, reduzindo ainda mais a disponibilidade de insumos para a indústria nacional de reciclagem. Esse movimento representa um risco sistêmico para a cadeia produtiva do alumínio secundário, ao comprometer a previsibilidade de suprimento de um insumo estratégico.


Liderança brasileira em reciclagem sob risco: O Brasil apresenta participação de alumínio reciclado no consumo interno muito acima da média global, sustentada por investimentos industriais relevantes, mas esse desempenho encontra-se ameaçado por desequilíbrios no mercado de sucata.


A intensificação da demanda internacional por sucata de alumínio decorre, principalmente, de dois fatores estruturais. O primeiro é a estratégia da China de ampliar substancialmente sua capacidade de reciclagem, com meta de expansão de aproximadamente 22 milhões para 37 milhões de toneladas até 2028. Em um contexto no qual a matriz elétrica chinesa ainda apresenta elevada participação de fontes fósseis, a substituição da produção primária pela reciclagem de sucata constitui um vetor relevante de redução de emissões de carbono, alinhado aos objetivos climáticos do país.


O segundo fator refere-se às distorções introduzidas pelas políticas tarifárias dos Estados Unidos. A imposição de tarifas elevadas sobre o alumínio primário, combinada à exclusão parcial da sucata desse regime tarifário, intensificou a competição global por esse insumo. Ainda que o Brasil enfrente condições tarifárias menos favoráveis, o redirecionamento de fluxos comerciais em outros mercados acaba por estimular, de forma indireta, a exportação de sucata brasileira.


Como consequência, os preços internacionais da sucata vêm registrando aumentos relevantes, dificultando as importações necessárias ao abastecimento do mercado interno e elevando o risco de ociosidade nas plantas de reciclagem nacionais. Desde a elevação das tarifas norte-americanas sobre o alumínio primário, os preços internacionais da sucata acumularam alta significativa, pressionando a viabilidade econômica da reciclagem doméstica.


Esse fenômeno não se restringe ao Brasil. Economias com cadeias de reciclagem avançadas, como a União Europeia, enfrentam desafios semelhantes. Em resposta, o bloco europeu anunciou a intenção de adotar medidas restritivas às exportações de sucata de alumínio, por meio de tarifas ou cotas, com o objetivo de preservar insumos estratégicos, reduzir vulnerabilidades industriais e assegurar os benefícios ambientais associados à economia circular.


Nesse contexto, a gestão da sucata de alumínio emerge como um tema central da agenda ESG, ao envolver simultaneamente segurança de suprimento industrial, mitigação de emissões, valorização da economia circular e governança de recursos estratégicos.

 
 
 

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